Prova de vida para pessoas com deficiência: dificuldades e direitos

Tetraplegicos

 



Quando o banco não está preparado: por que pessoas com deficiência ainda enfrentam dificuldades para provar sua própria vida.


Imagine precisar resolver uma questão simples com o banco. Uma prova de vida, uma atualização cadastral, um problema com o cartão ou uma dúvida sobre um benefício.

Para muitas pessoas, isso pode significar alguns minutos no aplicativo ou uma rápida ida à agência.

Para uma pessoa com deficiência, porém, a mesma tarefa pode se transformar em uma sequência de obstáculos.

E o mais frustrante é que, muitas vezes, o problema não está na pessoa. Está em um sistema que ainda não foi pensado para atender diferentes formas de viver, se comunicar e se locomover.

Quando uma tarefa simples deixa de ser simples

A tecnologia trouxe muitas facilidades para os serviços bancários. Hoje, é possível fazer transferências, consultar o saldo, pagar contas e realizar diversas operações sem sair de casa.

Mas a digitalização, por si só, não significa acessibilidade.

Um aplicativo pode exigir movimentos que uma pessoa com limitação motora não consegue realizar. Uma etapa de reconhecimento facial pode apresentar dificuldades. Um sistema automatizado pode não compreender determinadas formas de comunicação.

E quando algo dá errado?

É nesse momento que muitas pessoas percebem que a inclusão ainda está longe de ser completa.

O aplicativo orienta a procurar uma agência. A agência orienta a utilizar o aplicativo. O telefone direciona para outro canal. O atendente pede um procedimento que depende de uma capacidade física ou tecnológica que aquela pessoa não possui.

O que deveria ser uma solução acaba virando um labirinto.

A prova de vida pode revelar uma barreira muito maior

A prova de vida existe para garantir que determinada pessoa continua viva e apta a receber um benefício ou manter determinada relação com uma instituição.

O objetivo é legítimo.

O problema surge quando os procedimentos não consideram adequadamente a realidade das pessoas com deficiência.

Uma pessoa pode ter dificuldade para comparecer presencialmente a uma agência. Pode depender de transporte acessível, de um acompanhante ou de equipamentos específicos.

Também pode encontrar dificuldades quando o procedimento depende de biometria, reconhecimento facial, assinatura ou interação com equipamentos que não foram desenvolvidos pensando na diversidade dos usuários.

Nesse cenário, provar que está viva pode se tornar uma experiência humilhante, cansativa e desnecessariamente complicada.

É uma situação difícil de explicar para quem nunca passou por isso.

Afinal, como pode alguém precisar enfrentar tantas barreiras simplesmente para comprovar que continua existindo?


O problema vai além da deficiência

Existe uma diferença importante entre ter uma deficiência e enfrentar uma barreira por causa dela.

Uma pessoa pode ter determinada limitação física, mas isso não significa que ela seja incapaz de administrar sua própria vida financeira.

Quando um sistema não oferece uma alternativa acessível, porém, a deficiência deixa de ser apenas uma característica individual e passa a ser agravada pelo ambiente.

Uma porta estreita pode impedir a entrada de uma pessoa em cadeira de rodas.

Um aplicativo incompatível com tecnologia assistiva pode impedir uma pessoa de realizar uma operação.

Um atendimento que não oferece uma forma adequada de comunicação pode impedir alguém de explicar seu problema.

Em todos esses casos, existe algo em comum: a barreira foi criada pelo ambiente, pelo serviço ou pelo procedimento.

Quando a autonomia vira dependência

Talvez uma das consequências mais dolorosas seja a perda de autonomia.

Imagine uma pessoa adulta que sempre administrou sua própria conta bancária e, de repente, precisa pedir ajuda para alguém acessar o aplicativo, entrar em contato com o banco ou acompanhar uma operação.

Não porque ela não saiba fazer.

Mas porque o sistema não permite que ela faça sozinha.

A diferença é enorme.

Pedir ajuda porque queremos é uma coisa. Precisar pedir ajuda porque o serviço não oferece acessibilidade é outra.

Autonomia também significa poder resolver os próprios problemas, tomar decisões e ter controle sobre a própria vida.

Para uma pessoa com deficiência, isso não deveria ser tratado como privilégio.


O atendimento humano continua sendo importante

A tecnologia é importante, mas ela não pode ser usada como desculpa para eliminar alternativas de atendimento.

Quando um procedimento digital falha, o cliente precisa encontrar uma pessoa preparada para ajudar.

E não qualquer pessoa.

É necessário que os profissionais compreendam que acessibilidade não significa apenas ter uma rampa na entrada da agência.

Acessibilidade também envolve comunicação, atendimento, tecnologia, procedimentos internos e, principalmente, respeito.

Às vezes, uma pessoa precisa de mais tempo para realizar determinada tarefa. Em outras situações, precisa de uma alternativa ao reconhecimento facial, à assinatura convencional ou ao atendimento exclusivamente digital.

O atendimento adequado começa quando o funcionário deixa de enxergar aquela pessoa como "um problema" e passa a enxergá-la como aquilo que ela é: uma cliente que tem direito ao serviço.


Inclusão não pode existir apenas no discurso

É comum vermos empresas falando sobre diversidade, inclusão e acessibilidade.

Mas a verdadeira inclusão aparece nos detalhes.

Ela aparece quando um aplicativo funciona para diferentes usuários.

Quando existe um canal alternativo para quem não consegue utilizar determinado recurso.

Quando uma agência está preparada para atender pessoas com diferentes necessidades.

Quando o funcionário sabe como proceder diante de uma situação que foge do padrão.

E principalmente quando a pessoa com deficiência não precisa provar repetidamente que merece ser atendida.

Inclusão de verdade não é adaptar uma solução depois que alguém reclama.

É pensar nas diferentes pessoas antes de criar o serviço.


A burocracia tem um peso diferente para cada pessoa

Uma exigência que parece pequena para uma pessoa pode representar horas, dias ou até semanas de esforço para outra.

É preciso deslocamento. É preciso encontrar transporte adequado. É preciso organizar um acompanhante. É preciso enfrentar filas. É preciso explicar novamente a situação para diferentes atendentes.

E, muitas vezes, depois de tudo isso, a solução ainda não aparece.

Esse custo raramente aparece nos números de uma instituição.

Mas existe.

É o custo do tempo, da energia, da ansiedade e da perda de autonomia.

Por isso, discutir acessibilidade bancária é também discutir dignidade.


O que precisa mudar?

Não existe uma única solução.

É necessário que bancos e instituições financeiras revisem seus procedimentos considerando diferentes tipos de deficiência e diferentes formas de acesso aos serviços.

Também é importante oferecer alternativas quando determinado mecanismo tecnológico não funciona para um cliente.

O atendimento presencial precisa ser acessível. Os canais digitais precisam ser desenvolvidos com critérios reais de acessibilidade. Os funcionários precisam receber treinamento adequado. E os procedimentos excepcionais precisam ser claros, para que o cliente não fique sendo transferido de um canal para outro sem conseguir resolver o problema.

Mais do que isso, é preciso ouvir as próprias pessoas com deficiência.

Ninguém conhece melhor determinadas barreiras do que quem precisa enfrentá-las todos os dias.

Não deveria ser necessário lutar para provar que você existe.

No fim das contas, talvez essa seja a parte mais difícil de aceitar.

Uma pessoa com deficiência já precisa enfrentar diversas barreiras no cotidiano. Não deveria encontrar mais uma quando tenta acessar um serviço essencial.

Provar a vida não deveria significar provar capacidade.

Resolver um problema bancário não deveria significar provar autonomia.

E pedir atendimento acessível não deveria significar pedir um favor.

A inclusão começa quando deixamos de perguntar se uma pessoa consegue se adaptar ao sistema e passamos a perguntar se o sistema foi construído para atender pessoas diferentes.

Porque pessoas com deficiência não precisam de menos direitos, de tratamento especial ou de privilégios.

Precisam que os direitos que já existem possam ser exercidos na prática.

E, quando um banco consegue garantir isso, não está apenas cumprindo uma obrigação.

Está permitindo que uma pessoa continue vivendo sua vida com aquilo que todos deveriam ter: autonomia, respeito e dignidade.

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